Este bate-papo que começo agora, é com um dos pioneiros da terapia corporal no Brasil a colocar em prática o trabalho de Reich unido as práticas ativas de meditação. Marcio Lisboa, que foi iniciado e recebeu o nome de swami Satbodhi vem nutrir os leitores deste blog com sua sabedoria e experiência de longos anos dentro das mais diversas terapias aplicadas no ocidente.
Começo esta entrevista, sugerindo uma meditação guiada ao próprio entrevistado:
Entre em contato com sua memória visceral dos tempos em que suas palestras em auditórios de várias capitais do Brasil, mais de cem pessoas o esperavam para ouvir sobre Reich, corpo, respiração, meditação..etc. Este blog que estou trabalhando aqui e agora, reune em média 130 pessoas diariamente e elas estão então, a sua espera.
(Nota do editor: as perguntas são feitas e enviadas ao entrevistado que as responderá no seu tempo e livre de compromisso, aliás eu nem combinei com ele que isto se daria.)
O que acontecia em seu momento de vida, que veio a despertar este vínculo com as terapias e a espiritualidade, em que época isto se deu e que contexto vivia a política e a cultura no Brasil?
Acho que tudo começou com um sentimento de estranheza com o que eu via e ouvia à minha volta. Eu tinha 13 anos de idade, antes de me mudar para Brasília em 67. Em seguida uma insatisfação com a vida que tinha. Tinha tudo e estava insatisfeito. Aí encontrei duas pessoas que foram definitivas: um teósofo chamado Plauto de Almeida e uma professoara de Yoga chamada Carmem, Ma Taruna. Foi então que soube que eu não era quem eu achava que era e, ao mesmo tempo, numa aula de Yoga, tive uma experiência “transpessoal”, senti que o mundo havia “parado” e eu só experimentava uma consciência clara de que eu não era algo…eu estava sendo…
“eu estava sendo” é uma linguagem que expressa o que passa através da gente, além das interferências da programação mental, livre da atuação do ego…essa consciência que passou a te acompanhar não é nenhum pouco interessante ao sistema. Quais as resistências que você encontrou no início de seu trabalho ao desejar que as pessoas experimentassem o novo? Como você imagina e percebe que foi a atuação de Reich em uma época anterior a sua e ao que me parece, ainda mais reacionária e fechada?
A primeira vez que tive essa experiência consciente de “sendo” me abalou muito. Era algo que não conhecia e que despertou uma profunda inquietação interior, não havia nada estável…e todas as coisas me pareciam sem sentido: o que estudar, com quem casar e como atuar socialmente, pois vivia envolvido por uma cultura burguesa, judaico-cristã, que indicava o sucesso através da competição e da concorrência capitalista e eu não me via dentro daquilo. O que ajudou muito nessa integração social foi o curso de teatro que comecei na escola, com Laís Aderne e Dimer Monteiro. Através da arte reencontrei esse equilíbrio interior entre o eu e o social. O teatro foi o primeiro “agente terapêutico” que conheci. Sem saber o que fazer da vida, entrei no curso de Ciências Sociais, na UnB, um reduto importante, na época, de consciência revolucionária socialista…acabei preso pela ditadura e a “vaca foi pro brejo”. Depois disso eu sabia exatamente o que queria e o que não queria da vida, foi uma “iniciação”, que me fez abandonar todos os vínculos que tinha antes: família, trabalho como jornalista, estudo e mergulhei numa comunidade macrobiótica. A construção do Sat havia começado.
Ideologicamente, imaginava uma espécie utópica de marxismo espiritualista, ou seja, a revolução espiritual teria que acontecer através da revolução social, algo altamente “revolucionário” na época, pois os marxistas amigos dissociavam espiritualidade de reformas sociais. Estávamos em plena ditadura militar e espiritualidade de qualquer tipo era algo ingênuo e reacionário…
A riqueza com que recebo suas colocações, me faz refletir para abrir este espaço e reforçar aos internautas que façam suas interferências e perguntas. De outra forma isto ficará numa conversa de dois quando o rumo da energia já aponta para muitos. Sem mais perguntas, por hora. Namastê
Adriana pergunta: Sat, como foi educar seus filhos em um padrão familiar interno tão diferente do que vive sua familia de origem?
Como dar conta de tantas opiniões tão diferentes da nossa, sem gerar culpa de algo possivelmente dar errado? Como “manter a classe” com a origem tão judaico-cristã?
Quando se está em busca de si mesmo e de uma vida mais verdadeira, a primeira coisa que se perde é “classe”. São desafios muito grandes que essa angústia existencial nos conduz e não se pode à todo momento buscar um equilíbrio entre o status social e uma vida verdadeira. Seria algo absolutamente esquizofrênico e destrutivo para os dois lados. Você tem que ser honesto e responsável consigo mesmo se quiser se libertar daquilo que está matando você aos poucos…e que pode “matar” seus filhos também!
Acho que essas questões particulares, apesar de importantes, dentro do caminho “alternativo” seguido por muitos da minha geração naquela época, poderiam ser discutidas em outro momento, dentro de um outro contexto.
Questões particulares como essa da relação com a família de origem e a sociedade em geral, a vida financeira, padrões experimentais de relacionamento amoroso, a vida comunitária e os rumos que minha vida profissional foi tomando, etc. não fazem parte do objetivo central dessa entrevista como eu entendi à princípio. Vou ficar devendo essa.
Da visão reichiana dos anéis da couraça, o estudo dos eneatipos da escola Gurdjieff e Ichazo, as técnicas de meditações criadas por Rajneesh, à contribuição da terapia familiar por Doro Ortiz e de outras tantas influências que fazem parte da tua busca e formação, que combinação seria possível fazer para criar uma escola inédita de autoconhecimento?
Sua pergunta já trás um posicionamento pré-conceituoso, no momento que você inicia: “da visão reichiana…”. O ponto de partida, no meu caso nunca foi esse, algo vindo de fora para dentro. Já havia naturalmente muita informação fora para dentro, na família, na Igreja, na escola, no ambiente social, nas convenções, etc, etc, etc. Mas quando falo do que me guiava nessa busca, não me refiro à busca de conhecimento e erudição. Isso a escola convencional e o academicismo já ofereciam. O conhecimento que buscava era impulsionado por questões pessoais.Vinha de uma necessidade interior que me levava a querer saber sobre “aquilo” que eu vivia em mim: quem era eu?
Um exemplo singelo: com 13 anos eu me apaixonei pela primeira vez e queria saber mostrar isso, encantar a princesa. Encontrei numa banca de revistas “Como escrever Poemas e Cartas de Amor”. Aquilo, para mim foi mais importante que a Bíblia, naquele momento. Li e “copiei”, funcionou! Ah coração!!!
Foi a partir dessa experiência com o Teatro na Educação que , pela primeira vez, aprendi a importância do corpo e da expressão corporal na preparação do ator. No grupo, que foi o meu primeiro “grupo de terapia”, fazíamos exercícios, técnicas de consciência corporal, respiração, construção de diferentes personagens e situações. Éramos muito influenciados pelo trabalho de Grotowisk e do Living Theater, em Londres. Eram vivências radicais de expressão emocional, uso do corpo na criação de movimentos, etc. Ensaios todos os dias. Foi então que me caiu nas mãos um livro de Wilhelm Reich que integrava a visão socio-política com psicologia caracterológica. Não era mais ou menos o que eu estava procurando? Teosofia, Yoga, Teatro, Psicologia e Ciências Sociais, na UnB. Estávamos em 1974, antes do “grande evento”…
As experiências que até então vinham nutrindo e fortalecendo os sentimentos de amor e confiança no coração chegaram a ser comprometidas com o “grande evento” que imagino ter sido a prisão em Brasilia? Fale-nos dele.
Bem, com toda essa mistura-fina de interesses, vivências e informações de múltiplas fontes, havia em mim o desejo profundo de romper com todas aquelas coisas que me tolhiam ou impediam a busca e o encontro direto com o mais verdadeiro em mim. Havia uma insatisfação e um impulso à rebelião. Pediu…levou!
Em junho de dezembro de 1975, fui sequestrado, preso e torturado pela polícia política, em Brasília. Com 21 anos, eu “desapareci” em um dia que estava trabalhando, fui encapuzado, algemado, levado de um lado para outro e fiquei 20 dias no inferno, com outros “comunistas” e depois mais 20 dias na Polícia Federal. Um dia me soltaram sem mais nem menos. O menino que entrou saiu um homem decidido a dedicar-se inteiramente à busca espiritual. Na verdade hoje vejo tudo aquilo como um instrumento radical para o meu despertar. Saí da casa de minha família, da Universidade e do emprego. Mergulhei no trabalho de uma comunidade macrobiótica em Brasilia, com um Restaurante e um jornal, o JOU. Alí me “tratei” e aprendi a tratar as pessoas com alimentação, massagem shiatsu e exercícios chineses. Estava se rompendo a semente do que se tornaria o Sat. Era tudo que eu queria…
Estes acontecimentos radicais na vida do ser humano, por motivos que não são relevantes aqui, mas que levam a perda de liberdade e sofrimento físico/emocional, trazem diferentes formas de encará-los e aplicá-los na vida como um todo. Assim como você mencionou anteriormente, abordando o aspecto da rebelião, de que “pedi e ganhei” me faz refletir sobre esta coisa do destino ou karma como somos acostumados a pensar. Como você encarou e encara isto na sua vida e na experiência com as pessoas que buscam este entendimento através da psicoterapia?
Fundamentalmente, cada um de nós tem uma tendência natural à auto-realização, ou à manifestação do resultado de suas crenças e desejos. A idéia que temos de quem somos é forjada desde a infância e essas crenças orientam nosso comportamento em direção às nossas buscas. Essa auto-imagem cria uma divisão entre eu e o outro// eu e o mundo. Uma espécie de hipnose coletiva, um auto-engano, e experimentamos a nós mesmos segundo essa idéia de que somos “alguém”. A ignorância sobre nós mesmos é a fonte de muito sofrimento.
Em uma situação de extremo stress ou quando há uma ruptura profunda no nosso status, como doença grave, separação familiar, mudanças financeiras, etc. podem “esgotar” o ego e, naturalmente, uma manifestação da essência ou self pode acontecer. A dor sempre indica a necessidade de um ajuste ou correção da natureza. Ela é educativa muitas vezes. Isso é ao que me refiro quando falo em “usar” a dor, a perda ou a desilusão como instrumentos para o despertar. Vá até o fundo e a situação se transforma por si mesma, você muda…e tudo muda.
Naquela vivência extrema de angústia e desespero, dentro da prisão, sem saber se ia viver ou morrer, passando os dias sob o capuz, sofrendo e ouvindo todo tipo de violênca e abuso, senti que meu ego, assim como o conhecia, estava desaparecendo e tive a noção clara de que eu não podia controlar nada do que estava acontecendo comigo. Quando há essa “rendição” à verdade imediata e experimentamos uma absoluta ausência de controle e decisão sobre qualquer coisa, acontece algo surpreendente. No meu caso, nos últimos dias, provei uma paz e confiança estranhos ao contexto. Algo do tipo “seja feita a Vossa vontade”, uma vivência transcendental, além da razão, um preenchimento…foi a prisão que me libertou! A velha mentira sobre quem era eu, o falso eu, desapareceu no “pau-de-arara”, o que sobrou foi “eu”, um todo, sem separação, apenas presente.
É a isso que me refiro por Karma tornar-se Dharma, ou, como se diz na Humaniversity, você vai ao inferno para conhecer o céu e encontrar a luz. Na terapia e na vida cotidiana temos que ver sempre os dois lados da situação e conhecer mais sobre “quem” em você está passando por aquilo. Isso promove responsabilidade, consciência e a verdadeira liberdade. A vida nos oferece as oportunidades exatas que precisamos a cada momento. Se não for eu, aqui e agora, será quem, onde e quando?
“Alguma coisa acontece no quando agora em mim”…diz a sabedoria do poeta. E pra você, em que quando e quem dentro de você se interessou por terapia?
Muito antes da “terapia” propriamente dita, houve pela primeira vez na minha vida, até então, uma intensa preocupação com meu corpo físico e com a saúde. Era época da macrô e das comunidades naturalistas. Coisa rígida!
Tínhamos o Restaurante Coisas da Terra, o Jornal Ordem do Universo e uma comunidade em Sobradinho, todo mundo trabalhando com alternativas em alimentação e saúde. Seguíamos o mestre japonês, radicado nos EUA, Michio Kushi, um “sucessor” de George Oshawa.
Comecei a fazer muitas pesquisas no zen-budismo, técnicas taoístas, do-in, tai-chi-chuan e dava dicas e algumas orientações personalizadas. Talvez por vir de uma família de médicos, sempre convivi com a preocupação com o outro, o bem estar dos outros. Comecei a fazer shiatsu e orientação naturalista. O cuidado com o corpo como um “DO”, um caminho de realização pessoal integral.
Foi trabalhando com o corpo das pessoas, utilizando o que conhecia da Yoga, teatro, expressão corporal e massagens, que comecei a observar a relação entre corpo e mente como um único sistema . A Terapia Corporal. O grande nome em meu caminho foi o Gaiarsa que me “mostrou” Reich de uma maneira particular e Aron Abend, hoje Sw. Prashanto, com quem fiz minhas primeiras sessões de bioenergética, no Rio. Tempos de aventura!
Comecei minha terapia e voltei para a faculdade de Psicologia.
Eu já atuava na área da terapia corporal em Brasília e terminada a Licenciatura, fui para o Instituto Wilhelm Reich, na cidade do México, estudar com Blanca Añorve. Então aconteceu outro “choque de mudança” em minha vida. A Terapia Reichiana, chamada então de neo-reichiana, demonstrou o poder da energia vital que percorria meu corpo, a couraça muscular foi atacada nas aulas de Blanca, uma mestra. Tínhamos aulas teórico-práticas de Rebirthing, Massagem Reichiana nos anéis de tensão e Integração Postural. Foi o período mais intenso até então, na minha “formação”. Meu corpo doía, tremia, eu chorava, gritava, enquanto revivia muitas dores e memórias acumuladas nas defesas musculares. Ví o quanto vivia rígido, amedrontado, sempre carente, defensivo ao contato afetivo e mecanizado emocionalmente. Senti pela primeira vez o que era “vitalidade”, o que era “respirar” e o que era “orgasmo completo”. Aquilo que a vida congelou, a terapia dissolveu…estava aberto o caminho.
Não posso deixar passar a mesma indagação que a internauta Adriana fez sobre os acontecimentos e sua vida pessoal. Sinto ser oportuno que compartilhe, quais os reflexos destas descobertas nos relacionamentos, filhos e a continuidade da vida profissional?
Em 1975, depois do “evento” que me partiu em dois: o que eu achava que era de antes e o que “não sei quem sou” de depois, houve um momento de imersão interior em que me “desliguei” completamente do contexto de vida que tinha anteriormente. Muitos companheiros “piram” nesse momento, pois perdem os referenciais. O referencial que ficou em mim era a busca da espiritualidade e de uma vida com sentido, que me fizesse feliz, simplesmente. Uma vida verdadeira e natural, sem pretensões.
Afastando-me da família, do trabalho, da escola e das relações sociais de então, eu fiquei só comigo mesmo, sem sonhos, sem ideais e sem ambição, apenas uma forte sensação de ser e de estar “sendo” dia após dia. Foram as técnicas de terapias orientais, a meditação e a vivência numa comunidade alternativa, além do encontro com minha primeira companheira, Marga, que fui gerando um novo eu com uma nova perspectiva de vida e uma nova visão das coisas. Isso foi “reconfigurando” toda a minha vida dentro de uma proposta de saúde e auto-conhecimento. O corpo era a porta e o caminho, minhas sensações e emoções eram o que havia de mais verdadeiro em mim e seriam meus “mestres” principais dali para frente.
Só era verdadeiro o que eu podia sentir e experimentar por mim mesmo.
No mais, eram crenças, conhecimentos adquiridos e condicionamentos. A vida utilitária se transformou em algo absolutamente secundário, que só tinha sentido se correspondesse ao que era verdadeiro para mim. Foi um corte radical entre os conteúdos “importados” da educação e da sociedade, e a forma com que eu “sentia” as coisas. A realidade se tornava mais subjetiva e eu era um observador, sem muito controle ou poder de manipulação. Os jogos sociais haviam enfraquecido e eu buscava pessoas “reais”, num mundo de robôs sonolentos, mecanizados, padronizados e habituados à falsidade. O corpo, mais do que o intelecto e a razão, era o caminho para minha essência humana, que se expressava desde as atitudes, as emoções e estados de consciência. Sentindo-me perdido, desajustado e sem perspectivas dentro de um mundo em transformação, como se tivesse saido de uma rodovia “free way” e tomado uma estrada “off road”…
Era a época dos hippies e a contracultura florescia, fazendo ressonância aos meus anseios por uma vida “alternativa”. Foi aí que encontrei minha nova “casa” e tudo mais passou a girar ao redor disso. O caminho era buscado dentro de mim e eu não mais seguia o rebanho. Foi um período de crise e confusão, muitas experiências, testava de tudo e buscava algo, como alguém que estava se afogando. Sozinho eu não conseguiria…os mestres puderam aparecer. Tudo começou a se iluminar na estradinha.
Eu estava pronto para amadurecer e criar a vida que idealizava.
A vida prática voltou a ter sentido e direção novamente. Então, em setembro de 76, João, meu primeiro filho com Marga, nasceu…um “mestre” fundamental! Eu era pai! Um milagre no meio do caos!
A vida finalmente mudou e nunca mais eu seria a mesma pessoa.
Quando você muda, tudo muda. Não espere tudo mudar para você mudar. Isso nunca acontece. O que a vida pode dar para ajudar são os “choques”, você aproveita as oportunidades ou vai ficar esperando o “ônibus” perfeito…que nunca vem! Com João, eu tinha que fazer uma reconciliação com o mundo…virei o que eu já era: filósofo, professor e “terapeuta”: ouvir, falar e fazer. Os clientes e alunos foram grandes professores e me indicaram o novo percurso. Precisava trabalhar para pagar minha vida e, para isso, precisava ser bom e competente no que fazia. Precisava me aperfeiçoar e aprender mais. A vida, mais uma vez, era guiada pela necessidade interior de conhecer e ser útil.
Abrimos uma sala em Brasília. Sucesso! Curso de Psicologia e México, em 81.
Conhecer a biografia de alguém que pulsa intensamente na expressão do amor e tem a coragem de correr riscos, prepara o terreno à experiencias reais. Alienar-se de si mesmo e dos acontecimentos é o mesmo que viver anestesiados. Tenho 47 anos e exatamente há 30 anos atrás, nesta época de 81, fui iniciado em vivências corporais e comunitárias com Satbodhi que deram o verdadeiro rumo e sentido a minha vida. O movimento no Brasil, em torno da busca por si mesmo, estava explodindo. Podemos ouvir mais o que eclodia a sua volta?
O início dos anos 80 foi muito estimulante. Havia uma efervescência cultural no Brasil. A abertura política, a volta dos anistiados e reorganização socio-política estimulavam à criatividade, ao sonhos e utopias. A arte, particularmente o meio musical, carregava a juventude para um apelo a liberdade sexual, as relações eram questionadas abertamente e novas formas de organizar a vida familiar eram experimentadas em “comunidades”. Não foi diferente na cultura acadêmica, em que teóricos e pensadores exóticos eram estudados com interesse. Na psiquiatria se falava de Laing, Cooper, Deleuse, etc. Na area da Psicologia, no mundo inteiro, se buscava mais o interior do indivíduo, no encontro inédito entre oriente-ocidente e o “corpo em terapia” ganhou destaque.
A razão psicanalítica se encontrava com as sensações e sentimentos. O corpo ganhava com mais liberdade a expressão emocional. A partir de Carl Roger e dos grupos de terapia centrados no eu “holístico”, com corpo e mente reconhecidos como uma unidade, surgiram as mais diversificadas técnicas vivenciais/experimentais. O verbo interpretativo abria espaço para o corpo vivo!
Wilhelm Reich (couraças musculares do carater), Alexander Lowen (bioenergética), Fritz Pierls (Gestalt), e os neo-reichianos Kelleman (anatomia emocional), Janov (grito primal), Pierrakos (biodinâmica), Gerda Boyensen(bioterapia), Kelley (educação), Ida Rolf (rolfing), Leonard Orr (rebirth), entre muitos outros indicavam um caminho até então tabu: o corpo não podia se mover, ser tocado e se expressar emocionalmente na psicoterapia. Agora o corpo calava a boca e começava a sentir sua verdade e sua força energética. Com a terapia corporal surge também, de modo mais presente, o “outro”: eu e o outro “corpo”.
Paralelamente, havia uma pesquisa profunda sobre estados alterados de consciência e utilização de substâncias psicoativas como uma trilha para a espiritualidade e o extase. O inconsciente “é” e “está” no corpo, retornando ao dito freudiano de que o ego, antes de tudo, é um ego corporal. A psicoterapia buscava um casamento feliz entre a biologia e a consciência.
Apareceu o primeiro mestre oriental que ligou o sexo à supraconsciência, desfazendo um milenar nó na barriga de todos que forçavam-se à abdicar do corpo para chegar à santidade e vice-versa: Osho. Foi uma correria. Os maiores expoentes das técnicas psicoterapeuticas de vanguarda correram em massa para a India buscando experimentar as técnicas ativas de meditação, que integravam a expressão e a integração corporal ao silêncio meditativo. Esse caminho nunca tinha sido percorrido pelo conhecimento psicológico tanto do ocidente quanto do oriente. Puna se tornou a Meca para os que buscavam corrigir essa antiga fratura. Naturalmente começou uma inquietação entre as correntes mais tradicionais e ortodoxas, vendo seus contingentes voltarem da India com um estranho e novo brilho nos olhos. Estava surgindo uma nova e revolucionária maneira de ver o ser humano em todas as dimensão…do sexo à supraconsciência!
Reich pressentiu que um “elefante branco” iria se mover por baixo de séculos de repressão moral e bio-funcional. O elefante havia despertado com fortes sacudidelas. O antigo mofo dava lugar à danças, risos, choros, sexo, gritos, amor, amizade íntima, aliados à busca da iluminação através da meditação. Os ritos pagões da antiguidade se renovavam e se reconstruíam como caminhos para a restauração do feminino sagrado e da nova criança, semente para um novo homem! Filosofia, arte, ciência e espírito começavam um namoro e havíamos chegados ao “ponto de mutação” de Capra (O Tao da Física). O universo do auto-conhecimento entrou em catarse! Era preciso muita ousadia e coragem, além de certa irreverência…um grande “choque de mudança” no “espaço psi”.
Belo e claro panorama do que acontecia no universo dos buscadores espirituais, mas no campo pessoal, ainda na década de 80 você teve uma só relação íntima…rsrsrs, e um único filho?
Entendo que os anos 60 foram de desvelamento das possibilidades, tudo ainda incipiente, como um “aterro” que estava preparando o campo. No Brasil foi um amordaçamento coletivo com a revolução militar e as energias criativas sofreram uma implosão radical. Nos anos 70, pós-woodstock, um deslumbramento, muita droga, amor livre e rock and roll. Foi nos anos 80 que as estruturas começaram a ser desconstruidas e diferenciadas para o surgimento de um campo experimental, uma nova consciência, como falava Luiz Carlos Maciel, em seu livro. A família era questionada e os relacionamentos conjugais entraram em crise, com o novo espaço aberto para as mulheres, pílula anticoncepcional, busca do prazer e trabalho fora de casa. Isso foi transformador! Mas, e as crianças?
Inspirados na proposta dos kibutz israelenses, os casais jovens buscavam a alternativa comunitária: vamos juntar todo mundo e dividir tudo. As propostas naturalistas se estendiam ao parto natural, alimentação no seio e a as famílias nucleares se dissolveram em grupos de convivência, para partilhar moradia, alimentação, crianças…e sexo, algo que nunca tinha sido vivido de maneira tão radical. Osho propunha que sua comuna deveria ser uma grande família de amigos-amantes! Um choque cultural na tradição judaico-cristã. A nova-esquerda, pós-Paris/68, com Sartre e Simone Beauvoir, Marcuse, etc, apoiados pela nova psicologia anti-facista Reichiana, apresentavam o gozo e a volta à natureza como padrões revolucionários de “desobediência civil”, levando o amor entre homem-mulher à uma intensidade e liberdade nunca antes desfrutados, abrindo espaço para o reconhecimento da homosexualidade como uma opção individual e válida. Meu segundo filho, Pedro, nasceu em casa, comigo e o querido amigo-médico acupunturista Chico, em Brasília.
Voltando do Oregon, não éramos mais os mesmos, e toda experiência prévia adquirida na terapia corporal, com Hugo Rodas (dança), Joel Fink (movimento consciente), Rolando Toro (biodança), entre outros, se configurava como caminhos de trabalho em grupo e vida comunitária, única possibilidade na época de se poder viver todos os parâmetros da nova revolução de costumes.
Em 81, alugamos uma chácara no Lago Sul, em Brasília e começamos uma experiência de Centro Comunitário de Meditação e Terapias, que funcionou durante 25 anos. O “casamento aberto” era uma transgressão estimulante mas muito problemática sobre a antiga programação convencional. A gente transava mas se corroía de ciúmes, possessividade e muitas crises que eram levadas ao “salão de terapia” para serem exaustivamente discutidas e avaliadas. Era cômico e, em alguns casos, dramático! O ideal da “suruba amorosa” percorria certos trechos bem complicados e neuróticos. Hoje é possível rir de tudo aquilo, mas na época éramos aventureiros, forçando a barra sobre nossos sentimentos mais íntimos e sensíveis: o amor pelo parceiro. “O seu amor, ame-o e deixe-o amar…”.
Na estrada, os grupos rolando, de Recife à Porto Alegre. Começava a “caça às bruxas” pelas instituições oficiais. Rolando Toro foi cassado, Roberto Freire (somaterapia) perseguido, Ralph Viana (revista Rádice) perseguido e Rajneesh (Osho) era odiado como o demônio encarnado e os saniasins banidos da sociedade tradicional. Meu querido amigo Sampurno publicou uma matéria anunciando um grupo meu em Brasília, que me causou uma chamada e uma advertência do Conselho Federal de Psicologia: não se podia utilizar aquelas “técnicas ativas” em psicoterapia, fui banido e tive que fazer minha escolha: “-então, prefiro não ser “psicólogo” e sim um autêntico agente de mudança”, radicalizei minha postura e segui meu trabalho que já fazia antes: massagens, movimento consciente, técnicas orientais e meditação. O paradigma havia mudado: não havia nenhum ego a ser curado, mas a essência à ser libertada e vivida. As comunas e os grupos de terapia se enchiam de terapeutas de todas as linhas, a força da vida rompia as barreiras blindadas da comodidade, do comércio da doença mental e emocional. As pessoas “adoeciam” porque não conseguiam VIVER! E não viviam devido as antigas camadas de condicionamentos historicamente determinados: o “elefante” reichiano se atirava contra as estruturas da repressão organísmica. Os processos neuro-vegetativos, explorados por Frederico Navarro e seus “descendentes” (vegetoterapia), associados à respiração e ao prazer de simplesmente viver, levantavam os “pacientes” do divã para os grupos em que se dançava, ria, cantava, gritava de raiva, pulsava (pulsation) e se descobria novas formas de amar. Abríamos o caminho para uma nova educação, para uma nova criança. Nossos filhos eram as cobaias experimentais de um processo novo que ninguém sabia onde ia dar…mas ousávamos!
A família era reconfigurada e os filhos nasciam de várias descendências: filhos múltiplos de vários amores. Era confuso, perturbador, mas não tinha volta. A “família” transcendia à FAMÍLIA e se tornava comunidade!
Internamente eu me desmantelava, acompanhando todo esse processo. O que fazer com minha personalidade? Com os antigos arquivos e programas que havia herdado da cultura e da minha família? Havia muita divisão e sofrimento embutidos. Eu precisava novamente de ajuda. Encontrei o Doro Zarate, terapeuta chileno, recém chegado ao Brasil, trazido por Nytia, de Porto Alegre. Organizamos o primeiro Processo Fisher-Hoffmam, estilo Doro. As estruturas tinham que ser conscientizadas e tornadas mais funcionais. Centenas conheceram este homem maravilhoso e cresceram através de seu método revolucionário: desconstruir o programa de amor negativo que todos trazemos no corpo e na mente, enfrentando nossas máscaras neuróticas.
Dessa experiência nasceu o Processo de Deprogramação e o Instituto Asas e Raízes, em Curitiba, uma comunidade terapeutica vivencial que durou três anos. Alí se viveu de tudo! Alí se viveu de fato! Estávamos no final daquela década extraórdinária para todos que passaram por aquilo. Nasceu Daniel Sat e Julia Tosh. Conheci Ma Prashanto que me trouxe Mukta, nossa filha do coração…e o Brasil havia criado uma grande família em torno do pensamento de Osho, que foi perseguido e assassinado pelos agentes prisionais norte-americanos. Iniciava-se, nos anos 90, a escura era-Bush e o céu colorido voltou a nublar….eu adoeci e tive que me recolher novamente. Agradeço aqui amigos-amores Marga, Vivarta, Yashoda, Pragita, Bhaskar, Niranjana, Shakyamuni, Baraka, Abhijat e, em especial aos meus filhos, que souberam me educar muito melhor do que eu a eles…meus amados!
Eu me relaciono com a internet como uma veradeira entidade…me coloco a disposição de idéias que nascem da passividade e do silêncio. Assim me veio o projeto deste bate-papo. Sem saber onde nos levaria – o prazer da caminhada ta no caminho – vejo agora uma emocionante biografia (como também indicam os depoimentos de amigos feitos no FACEBOOK) e sábios ensinamentos para todos interessados na busca de si-mesmos.
Consultando a entidade, percebo que há muito ainda para ser dito e mesmo querendo que mais pessoas façam colocações e perguntas, também sei que mesmo que os questionamentos venham de mim, estaremos nutrindo outros corações. Já reli algumas vezes e é como estar de frente de um belo livro que gostamos. Quero ler então, sobre o movimento que se fez em Porto Alegre, com a chegada do Doro e as primeiras vivências que participei que se chamavam “Campo Vital”.
Essa época, como você sabe, foi uma fase muito estimulante em minha vida. Abria-se diante de mim muitas possibilidades dentro daquilo que então se chamava “campo de energia”, relacionado com as teorias do físico Rupert Sheldrake e seu famoso estudo “centésimo macaco”, um dos fundadores do pensamento holístico. Segundo o holismo, os campos morfogenéticos são a memória coletiva a qual recorre cada membro da espécie e para a qual cada um deles contribui.
Campo Vital era uma vivência de grupo, preferencialmente em um ambiente natural, onde fazíamos uma imersão total na dimensão não verbal, ou “para-verbal”, pois a condução e as orientação técnicas eram acompanhadas apenas de um compartilhamento espontâneo, onde cada participante expunha suas impressões sobre os efeitos principais dos exercícios. Preparávamos o “campo” com exercícios chineses e caminhadas, e explorávamos o espaço interior com ginástica consciente, yoga, psicodramas, meditações ativas, massagens, dança e “encounter”, onde podíamos olhar o “outro” como num espelho e perceber “projeções” diretamente.
Era uma proposta de fim-de-semana, que realizávamos inicialmente em Nova Petrópolis, na serra gaúcha. Formávamos uma equipe, cada um cuidando de uma parte: alimentação, música, limpeza e suporte nas vivências. Uma verdadeira maratona de 48 horas, em que os todos se uniam numa sintonia mais profunda de relacionamento verdadeiro, sempre dirigida à participação de todos na criação do Campo, o “budhafield”.
O corpo como ferramente principal, com as sensações e emoções, era “trabalhado” com direfentes técnicas da Terapia Corporal e do Teatro para se encontrar uma maior integração corpo-mente. Campo Vital é o resultado de um momento energético na psicologia, na busca do sentir, do confrontar-se com defesas psico-físicas e poder transformá-las em criatividade, contato autêntico, entrega emocional e brincadeira. Uma fase lúdica, como crianças brincando, se conhecendo e compartilhando do ser e do estar simplesmente vivo! Tempos de energia, pulsação, alegria e celebração…depois que a couraça era mobilizada e a criança interior acontecia livremente. Boas lembranças…
O que se via acontecer era mágico. Pessoas que até então tinham levado vidas convencionais, com seus medos habituais, eram expostas à situações de improviso, superação de limites e, principalmente, reconhecendo-se corajosas…ou se estava dentro ou se estava fora! Era como dar um salto na dimensão expressiva, desconhecida, não havia “aula”, não se conceituava a experiência ou intelectualizava as emoções. A mente punha-se apenas como observadora e o “desejo de viver”, de arriscar, manifestava-se naturalmente. Os facilitadores afastavam-se do “fazer” e as coisas andavam por si, com muita abertura, muita honestidade e as máscaras caíam, para que a vida pudesse fluir.
Havia um problema nisso tudo: a segunda feira chegava para todos aqueles que, como uma pipa, haviam provado do ar rarefeito das alturas…o eu “funcional” tinha que assumir o controle novamente.
Eu também tinha que voltar ao meu dia-a-dia. Por isso não é correto chamar aqueles encontros de “psicoterapeuticos”. Não era isso que se buscava, “curar” qualquer coisa, era uma liberação que trouxesse paz. Era realmente “O Campo Vital”, mas não era a vida cotidiana e os “problemas pessoais”. Faltava algo para que o humano se fizesse mais total. Faltava aquilo que todos evitávamos fazer: olhar a parte escura de si mesmo! Era o circo, era o mosteiro, era a danceteria, eram os amores e a liberdade de voar. Mas onde estava a realidade da “segunda feira”? A minha segunda feira, quando os sons do circo sileciavam? “Eu” estava alí, diante de mim mesmo, meu cansaço, minha ressaca, meu tédio, minha sonolência, minhas frustraçãoes pessoais e os problemas que todos tinham, filhos, dinheiro, relacionamentos, etc…
O encontro com Doro se deu nesse exato momento. Depois de conversarmos um tanto, ele me perguntou olhando nos meus olhos:
“- Marcio, qual es tu cuento?” (qual era a historia sobre mim que eu contava para mim mesmo?). Aquilo me paralizou e eu senti aquela pipa colorida, que eu sabia manejar tão bem nos grupos, caindo, sem linha, levada pelo vento, sem terra! Algo começou a acontecer comigo, alí, debaixo daquelas árvores do Kevalan – centro de meditação no bairro Ipanema de Porto Alegre. Eu era uma casa desmantelada pintada de muitas cores, cheio de sensações, vivendo como um anjo-demônio sem controle. Eu não sabia quem eu era e isso era o mais importante desde o começo.
Ter a oportunidade de conhecer e trabalhar ao lado de um homem como ele foi e é uma oportunidade especial, mesmo que ele tenha partido. Doro mostrou-me que eu trazia uma engrenagem montada durante minha história de vida, especialmente nas relações primárias com meus pais. Uma engrenagem feita para amar e que tinha aprendido a amar “negativamente”. Amar o que me fazia sofrer, para conseguir o amor que eu sentia perdido. Buscando o Amor através do amor negativo. Eu fazia isso usando um esquema de personagens múltiplos com suas caras e jeitos, com seu carater , sua falsidade, seu medo crônico e sua preguiça. Não adiantava fugir para o nível instintivo-expressivo-infantil, e não se consegue facilmente escapar para o “iluminado” sem sê-lo de fato! No meio havia a personalidade com sua rede de máscaras. Doro ajudou-me a abrir as portas de meu inferno pessoal, tudo aquilo que eu evitava e me negava a ver…uma lama, fantasiado de palhaço, bem intencionado, com poder e ferramentas para servir aos outros, mas eu mesmo trincado por dentro. Doro me conduziu por esse caminho, com todo amor e toda paciência, “lo neurótico repite”, e com ele convivi e trabalhei durante uns quatro anos, não sei bem, pois acho que “ele me trabalha” até hoje.
O processo do Doro, chamo assim porque sei que o que ele fazia somente ele fazia, era poderoso para fazer, se o aluno fosse honesto, uma boa “faxina”, uma boa revisão nas coisas principais que havia aprendido para se destruir em vida. “É uma cirurgia sem anestesia”, se dizia. Era muito mais. Possibilitava um encontro com sua experiência básica, a mais verdadeira, de ser. Doro era impecavelmente integro e honesto quando trabalhava conosco, e nos cobrava o mesmo…nos educava.
Eu me meti no primeiro Processo e soei as trombetas! Muitos vieram, fizeram várias vezes, viajávamos juntos, estudávamos juntos todo tempo.
Se houve alguém que formou em mim o “terapeuta” foi Doro. Não foi universidade, livros e psicoterapias. Tudo isso é importante, mas nada vale se você não encontrar a si mesmo e ver que, nesse momento, “você” desaparece. O resto é lori-lori-lori, como diz meu neto Antonio. Chicharas mentales, como dizia Doro.
Tive o prazer de além de ser treinado por ele, participar da equipe com o trabalho corporal e as vivências em grupo.
A pipa tinha ganhado linha e a linha tinha uma mão que a guiava.
O Corpo, a Essência e o Instinto tinham ganhado uma consciência, uma mente e um sonho a ser buscado: a libertação de si mesmo!
No início da nossa conversa você falou: …e todas as coisas me pareciam sem sentido: o que estudar, com quem casar e como atuar socialmente, pois vivia envolvido por uma cultura burguesa, judaico-cristã, que indicava o sucesso através da competição e da concorrência capitalista e eu não me via dentro daquilo. Para mim a cultura segue a mesma ou mais reforçada, e nós nos desidentificamos do mundo e temos nossa vida retirada. Nossa alternativa foi a comunidade e ao meu ver a única saída. Qual sua visão sobre o momento planetário neste aspecto da comunidade? Você acha como eu que, não conseguimos sustentar esta convivência porque também vendemos a alma para o sistema?
Essa era minha visão na adolescência, enfrentando os desafios e questionamentos de todos os jovens daquela geração que iria buscar e abrir novas trilhas para encontrar as respostas.
Eram tempos de rebeldia e “lutas políticas” típicas daquele momento, antes da explosão das novas tecnologias e de uma nova configuração mundial em todos os campos. No meu caso particular a experiência comunitária levou à busca pelo indivíduo em mim. Quando encontrei Doro e Bernadita estava precisando ver quem eu era, antes de mais nada. Conheci alguns mapas da personalidade, como a leitura caracterológica, a Rede de Máscaras e o Eneagrama. Era uma introjeção da visão, olhar para dentro, e poder fazer uma nova interpretação da minha história, de modo a poder saber e compreender as raizes mais profundas de minhas ações e meus problemas.
Poderia dizer que a “mente” ganhou ferramentas para o melhor conhecimento de mim mesmo. Encontrar Maprashanto, o nosso amor e relacionamento, me deram a tranquilidade e a maturidade necessárias para organizarmos em Porto Alegre o Processo de Deprogramação Pessoal, esse mergulho na individualidade. O coletivo comunitário condiziu ao individualizado, ao particular, à minha personalidade. Um amadurecimento, sem dúvida.
Acho que, de certo modo, foi isso que aconteceu com muitas pessoas que realmente amadureceram e procuraram se colocar no mundo de forma mais responsável e consistente.
Não penso exatamente como você com relação à “venda da alma”.
Acho que a sociedade como um todo abriu várias portas de conhecimento, a ciência desenvolveu muitos novos recursos seja na medicina e nas novas tecnologias que promoveram avanços significativos em todas as áreas. Não tenho duvidas de que estamos vivendo um mundo melhor do que antes, com novos desafios e novas posturas. Seria impossível sequer imaginar românticamente que retroceder é melhor ou que o mundo antes era um mundo melhor. A sociedade se diversificou e as idéias também, numa velocidade impressionante. Olha nós aqui nas redes sociais. Isso não é uma coisa isolada, é um conjunto imenso de transformações. Seria absurdo pensar a vida como eu pensava quando era um garoto rebelde, ou como vivi nos anos 80, isso é passado! Naquele momento buscamos as alternativas mais viáveis para criar nossas vidas. Hoje os jovens continuam fazendo a mesma coisa e sempre foi assim em todas as épocas.
O que chamamos de “momento planetário” também é um cliche de moda. Cada momento é um momento planetário, com suas características próprias. O Renascimento, por exemplo, representou uma época de mudanças radicais, muito mais impressionantes para aquela época. Sair às cegas, em mar aberto, era muito mais desafiador do que ir à Lua, e o que se encontrou com as navegações foi algo muito mais importante e rico para a humanidade do que ir à Lua!
Na psicologia, esse encontro com o “indivíduo” em nós, foi muito importante e necessário, pois levou automaticamente ao encontro do “espírito”, da descoberta de si mesmo e da felicidade individual. Sem isso, acho difícil servir ao coletivo responsavelmente. Nesse “momento planetário”, como você chama, milhões de pessoas têm acesso às palavras de diferentes mestres espirituais, diferentes religiões se encontram e há uma grande busca pelo bem estar integral, seja pessoal ou coletivo. A espiritualidade, em todos seus aspectos particularizados, tem sido assunto de mesa de bar. No coletivo tradicional a verdade já vinha imposta e doutrinas eram utilizadas para impedir a visão da totalidade.
Sempre que há um grande desenvolvimento tecnológico/científico, há também um impulso no pensamento e nas maneiras de encarar e funcionar na realidade. Como sempre, quem segue o barco e se atualiza sobrevive melhor do que aqueles que se mantêm estagnados nas concepções antigas sejam elas boas ou más. Sempre teremos que pagar um preço para “crescer” e as gerações atuais estão pagando esse preço.
Temos dois olhos na face, podemos ver as coisas por pelo menos dois lados: um copo está meio vazio ou meio cheio? O “sistema” ainda existe e existirá, como a matrix, mas o indivíduo está mais envolvido no processo de participação social, o que não acontecia na época das ditaduras ou quando tivemos que nos “separar” do mundo em comunidade. A comunidade transcendeu à família e a globalização dos “sistemas” envolveu toda a humanidade numa participação coletiva também inéditas. Isso é bom, inexorável e irreversível…o sistema somos nós! Não podemos nos alienar mais…temos que fazer parte, participar e compartilhar. Acho que isso está acontecendo cada vez mais em todo mundo.
Shakyamuni,
Por intermédio de Sat, conheci seu site e sou uma das 130 pessoas que o visitam todos os dias. Conheço ele há anos, temos parentes em comum. Como vc abriu para seu publico fazer perguntas, eu gostaria de enviar uma. Se possivel, vc faça, se não, na boa, sem stress…
Sat, como foi educar seus filhos em um padrão familiar interno tão diferente do que vive sua familia de origem?
Como dar conta de tantas opiniões tão diferentes da nossa, sem gerar culpa de algo possivelmente dar errado? Como “manter a classe” com a origem tão judaico-cristã?
Obrigada pela oportunidade, Shakyamuni! E continuaremos nos encontrando aqui sempre. Belo trabalho! Bjs Dri
Obrigado à vc. Bjs.
Oi, Márcio. Foi uma grande alegria encontrar este site. Procurei a referência Jornal Ordem do Universo, e reencontrei uma parte do meu passado, já, quase esquecida.
Me lembrei de pessoas como Pompeu,Vanderley Lopes, Ary Pararraios, Joe e Margot, Valdo França, Mão de Onça, Plínio Floss e outros tantos.
Seria bom refazermos um encontro, daqueles que, materialmente, ainda estão entre nós.
Muito obrigado, pela vida revivida.
Abraços,
Condesmar.